sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ah, a vida ...

Que se veio nessa vida para aprender, é uma das poucas certezas que tenho. O quanto vai custar esse aprendizado? É uma resposta que dificilmente saberei ao certo.
Hoje foi um dia, assim, emocionalmente carregado.
Acordei um pouco mais tarde do que gostaria, mas disposta a combater o marasmo e a ansiedade que me abateram depois das férias de natal e a dar um jeito na vida.
Me vi então, submersa na poesia de Jorge de Sena e, principalmente, na sua posição crítica sobre a arte e sua recepção. Dali, segui para um mergulho não menos profundo na concepção de ekphrasis e em um de seus exemplos mais antigos, o da descrição do escudo de Aquiles, na Ilíada, de Homero. Banhada nesse oceano de novos conhecimentos, remando ansiosamente para ver em qual praia iria aportar, sentia-me renovada, mesmo com o cansaço de quem segue a buscar novos horizontes.
Mas, transformações implicam mudanças e mudanças não são sempre fáceis. Enquanto estudava o que estudei hoje, continuava a pensar em questões que tem me tirado um pouco da calma, questões sobre o futuro e suas incertezas, sobre a tomada de decisões que não podem ser ignoradas, sobre o meu modo de agir e sobre manias que não sei se são apenas manias ou se são, simplesmente (e infelizmente), eu mesma.
Esse meu momento aqui em Portugal, em um país diferente, com uma cultura específica, em uma nova universidade, com amigos novos e longe das pessoas que eu amo, longe das coisas que eu já conhecia e do ambiente em que eu sabia que tinha um lugar, me fez realmente pensar e repensar muitas coisas. Agora nessa reta final, em que eu me vejo mais preocupada com os trabalhos ainda por fazer do que com tantos momentos bons que sei que ainda vou desfrutar, me pergunto se eu dou valor para aquilo que realmente tem valor. Me questiono se eu consigo de fato aproveitar os banquetes que a vida me dá, ou se eu me contento sempre em ficar apenas na entrada, chegando raramente ao prato principal, mas com certeza nunca me deliciando com a sobremesa.
Nesses últimos dias, duas grandes amigas minhas (posso dizer que a mais antiga e a mais recente), me mostraram com duros exemplos que algumas perdas da vida são muito mais profundas do que gostaríamos, mas que, de jeito nenhum podem nos fazer recuar. Pelo contrário, acabam por nos dar mais força para seguir em frente, para sermos pessoas melhores, para sermos motivo de orgulho a quem nos é caro.
E é com essa boa lição que eu tento seguir em frente, nessa roda-viva de estar sempre um passo atrás do próximo aprendizado, tendo consciência que já tê-lo adquirido tornaria o caminho adiante muito mais fácil. E assim sigo na eterna busca de saber quem sou, na constante tentativa de conciliar esse meu eu com o eu dos outros, na paciente espera de aprender a lidar com decisões a serem tomadas, na primitiva procura das grandes respostas.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Plict-plact-plum, é dia de neve!!


Uma das coisas boas da vida é poder continuar sempre a ser criança. Claro que não o tempo todo, mas ao menos em alguns pequenos bons momentos. Hoje, definitivamente, foi um deles. O motivo? Neve em Braga!!

Estava eu a fazer uma prova hoje pela manhã – a primeira na Universidade do Minho – muito concentrada no imaginário e mentalidade do povo português, seus mitos e sua história, quando meu professor se aproxima e pergunta “Marina, já visse neve? Está nevando!”. Pronto! Bastou para que eu não conseguisse mais me concentrar nas questões que faltavam responder, ansiosa que fiquei para correr lá na rua e ver esse lindo espetáculo. Cada pessoa que saía fazia uma exclamação e eu vendo tudo apenas por uma janelinha da porta da sala de aula. Eu sei que quando consegui finalmente acabar a prova, a neve já não estava tão forte, mas ainda sim consegui desfrutar um pouquinho dela. E é como eu disse, a sensação era exatamente de voltar a ser criança: sorriso no rosto, luvas nas mãos, olhando para cima, tocando nos flocos que caiam, vendo que consistência tinham, como eram. O fascínio de descobrir algo pela primeira vez, a excitação por poder estar vendo a grama branca, os carros brancos, por estar vivendo aquele momento. E depois quando falei com os meus amigos e cada um contou como foi o seu encontro com essa surpresa matinal, percebi exatamente essa mesma sensação, essa euforia por ter visto neve pela primeira vez, essa vontade de brincar com ela, de ser criança de novo. Até a minha mãe, quando desceu para o jardim do prédio e encontrou um grupo de miúdos que estava ali com a sua professora, entrou na dança e travou uma breve batalha de neve com eles!

É isso que eu digo, esses momentos, em que a gente esquece preconceitos, esquece vergonhas e apenas aproveita, desfruta deles ao máximo, sabendo que logo vão terminar, são definitivamente o que fica da vida. Está aí a bela lição da neve!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Sempre é tempo de retomar...



Seguindo o bom exemplo da minha amiga Isa, tão disciplinada e organizada com os assuntos práticos da sua vida, decidi que vou levar a sério o nome desse blog “Diário de uma Viajante” e me educar para escrever nele com a mesma assiduidade com que reflito a minha estada em terras estrangeiras. Talvez um pouco influenciada pelo começo de ano, que se inicia sem destino certo, sem saber para onde direcionar sua proa, com certeza bastante instigada por um texto que leio para fazer um teste sexta-feira, denominado Portugal Como Destino – Dramaturgia cultural portuguesa, me determinei a, finalmente, escrever o que sinto, as minhas impressões e opiniões dessa minha vivência em Portugal.

Até então, estava mais preocupada com o fato de que um blog implica em tornar público o que antes era particular, aquilo que deixamos seguramente guardado na gaveta da nossa imaginação. Agora decidi que não importa, vou escrever como se escrevesse para mim mesma e tentar não pensar na recepção do meu “público leitor”.

Agora faltam menos de dois meses para que eu retorne para casa. Os fatos que se passaram aqui, até podem ser postos em uma rápida retrospectiva: chegada na residência; descoberta de um novo ritmo de vida e de um novo contexto; estabelecimento de ciclo de convivência e de amizades (as últimas, já fortes e provavelmente duradouras); pequenas viagens em Portugal - Guimarães, Porto, Ponte de Lima, Póvoa do Varzim - e viagens mais longas – Leiria, Batalha, Alcobaça, Lisboa, Gerês; grandes viagens de auto-superação e encontro com uma outra civilização (Londres); começo de uma atividade física empolgante (badmington); aulas que me ensinam muito sobre Portugal e seu povo (nas disciplinas de Idéias no Portugal Contemporâneo e Literatura e Nacionalidade), que me instigam a escrever, em língua inglesa, e conhecer mais a mim mesma (Creative Writing), que me confrontam com a universalidade e contemporaneidade da dramaturgia de Shakespeare (Shakespeare in Performance), que me apresentam e desafiam não só com o mundo das artes, mas com as suas teias de inter-relação (Interartes e Retratística); a crise financeira e, pela primeira vez, a sua consciência na minha realidade direta; a falta de uma cozinha equipada e a criatividade para lidar com o que se tem disponível; os ótimos programas culturais, periodicamente desfrutados; os não tão freqüentes programas noturnos, também muito bem aproveitados. Posso dizer que esses são, em breve resumo, os acontecimentos que se passaram até então. No entanto, é claro que fatos são apenas isso, fatos, e o que importa não são tanto eles em si, mas a forma como os sentimos, o que eles provocam, como eles nos mudam (ou não).

Mas esse post já está longo demais. Deixo então o recheio dessa narrativa factual para o próximo!