Que se veio nessa vida para aprender, é uma das poucas certezas que tenho. O quanto vai custar esse aprendizado? É uma resposta que dificilmente saberei ao certo.
Hoje foi um dia, assim, emocionalmente carregado.
Acordei um pouco mais tarde do que gostaria, mas disposta a combater o marasmo e a ansiedade que me abateram depois das férias de natal e a dar um jeito na vida.
Me vi então, submersa na poesia de Jorge de Sena e, principalmente, na sua posição crítica sobre a arte e sua recepção. Dali, segui para um mergulho não menos profundo na concepção de ekphrasis e em um de seus exemplos mais antigos, o da descrição do escudo de Aquiles, na Ilíada, de Homero. Banhada nesse oceano de novos conhecimentos, remando ansiosamente para ver em qual praia iria aportar, sentia-me renovada, mesmo com o cansaço de quem segue a buscar novos horizontes.
Mas, transformações implicam mudanças e mudanças não são sempre fáceis. Enquanto estudava o que estudei hoje, continuava a pensar em questões que tem me tirado um pouco da calma, questões sobre o futuro e suas incertezas, sobre a tomada de decisões que não podem ser ignoradas, sobre o meu modo de agir e sobre manias que não sei se são apenas manias ou se são, simplesmente (e infelizmente), eu mesma.
Esse meu momento aqui em Portugal, em um país diferente, com uma cultura específica, em uma nova universidade, com amigos novos e longe das pessoas que eu amo, longe das coisas que eu já conhecia e do ambiente em que eu sabia que tinha um lugar, me fez realmente pensar e repensar muitas coisas. Agora nessa reta final, em que eu me vejo mais preocupada com os trabalhos ainda por fazer do que com tantos momentos bons que sei que ainda vou desfrutar, me pergunto se eu dou valor para aquilo que realmente tem valor. Me questiono se eu consigo de fato aproveitar os banquetes que a vida me dá, ou se eu me contento sempre em ficar apenas na entrada, chegando raramente ao prato principal, mas com certeza nunca me deliciando com a sobremesa.
Nesses últimos dias, duas grandes amigas minhas (posso dizer que a mais antiga e a mais recente), me mostraram com duros exemplos que algumas perdas da vida são muito mais profundas do que gostaríamos, mas que, de jeito nenhum podem nos fazer recuar. Pelo contrário, acabam por nos dar mais força para seguir em frente, para sermos pessoas melhores, para sermos motivo de orgulho a quem nos é caro.
E é com essa boa lição que eu tento seguir em frente, nessa roda-viva de estar sempre um passo atrás do próximo aprendizado, tendo consciência que já tê-lo adquirido tornaria o caminho adiante muito mais fácil. E assim sigo na eterna busca de saber quem sou, na constante tentativa de conciliar esse meu eu com o eu dos outros, na paciente espera de aprender a lidar com decisões a serem tomadas, na primitiva procura das grandes respostas.


